Sobre traduzir ao pé da letra a Bíblia

Não é uma tarefa das mais fáceis traduzir a Bíblia. Parece fácil para quem já sabe o que vai pôr no papel. Afinal, há dezenas de Bíblias nas prateleiras do mercado e da fé (e do mercado da fé!). Todavia, se o que você quer é, de verdade, traduzir, e, sim, você não regula bem da cabeça!, você quer traduzir ao pé da letra, então você arrumou sarna pra se coçar…

Olhar cada palavra do texto da Bíblia Hebraica, e, tenho certeza absoluta, também do Novo Testamento grego, como que pela primeira vez, esquecendo a riqueza dos dicionários da Língua Portuguesa e escravizando-se ferreamente à pobreza absoluta da Língua Hebraica bíblica, é dolorosamente prazeroso. Para vocês terem uma ideia, quando aparece uma palavra pela primeira vez, eu fico um bom tempo analisando-a e seu contexto, e decido por um sentido possível. Quando ela aparece de novo em outro verso, e as versões correntes traduzem por uma outra palavra, eu não sigo o estouro da boiada. Eu me pergunto: se os autores usam a mesma palavra, tudo bem, a língua deles é pobre, por que nós traduzimos cada ocorrência por uma palavra diferente? Tudo bem, se a gente quer traduzir o significado, o que não é tanto uma tradução quanto uma explicação, vá lá. Mas a explicação eu darei em nota: a tradução terá de acorrentar-se ao modo de ser do escritor. Então, eu me esforço para analisar um sentido que seja possível empregar nos dois casos. Quando chegar aos dez casos acumulados, minha cabeça vai pegar fogo…

Você se debruça sobre cada palavra, uma de cada vez. Você já sabe que não vai seguir o rumo das traduções comerciais. E então você gasta tempo. Investe tempo, dirá o politicamente correto. Não: gasta tempo mesmo. O tempo vai embora, não volta mais. Você gasta. Você não está pondo dinheiro na aplicação para ele render, o que significa investimento. Você está gastando seu tempo, que não volta nunca mais. E você sabe disso. E você não tem pressa. Você quer ouvir a voz do morto. Fale, defunto, fale! E ele não fala. Ele só mostra a você aquela palavra escrita há dois mil e séculos de anos, e não fala mais nada. E você é um necromante falido, que não escuta nada, que só olha para aquela palavra morta, tão defunta quanto quem a escreveu. E você faz massagem cardíaca nela. E você faz respiração boca a boca nela. E você faz como Yahweh, que, pegando o boneco de pó de solo que ele faz, sopra nas narinas sem fôlego dele o fôlego de vidas, e a coisa começa a respirar, os pulmões são agora foles de forja, e não é que ele tem agora fôlego nas narinas, ele tem é fogo nas ventas, a palavra soprada do fôlego do cuidado, do zelo, da atenção, da exegese, respira, e fala com você uma voz de milênios, uma que outra vez nunca antes ouvida…

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